Leia Mulheres Brasileiras
A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas - Maria José Silveira
“A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas nos apresenta a uma
gama de mulheres de uma mesma família brasileira que, com suas histórias
emocionantes e trajetórias que espelham com fidelidade as épocas em que
viveram, representam mais de cinco séculos de história do Brasil. A vida de cada
uma delas acrescenta uma perspectiva única à crônica do país, remontando desde
as relações entre os índios e os colonizadores europeus até os millenials
dos grandes centros urbanos. Um retrato fiel das mulheres brasileiras, que, em
todas as suas diferenças, podem ser descritas de diversas formas, menos como
frágeis e submissas.”
(Texto da 4ª capa, Ed. Globo, 2018)
“Está bem.
Se é assim que vocês querem, vamos contar a história das
mulheres da família.
Mas vamos contar com calma.
O assunto é delicado, a família é complicada, e nem tudo foi
beleza nesta história. Houve, claro, felicidades e amores, muitas lutas e
conquistas, grandes realizações – afinal, elas ajudaram a construir quase do
nada esse país. Mas houve também loucas, assassinas, muitas desgraças e
tristezas. Grandes dores. Muitas mesmo.
Lembrem-se também, se for o caso, de que foram vocês que me
pediram para contar, desta vez, a vida das mulheres. Se em algum momento achares
que estou passando depressa demais pelos varões, não venham me acusar de
feminismo tardio. Já lhes digo de antemão que a vida dos homens é tão
interessante quanto a das mulheres, e se não entro mais na seara deles é só
para atender ao desejo de vocês.
E, já que a hora cada vez mais se aproxima, vamos começar a
contar a história por onde ela começou.
Com Inaiá, a pequena tupiniquim, a origem.” (Pag. 13,14)
A Mãe da mão de sua mãe e suas filhas não possui apenas uma
protagonista, mas 21 mulheres, cada uma marcando a história de sua época. Cada
uma contando sua história, enquanto o Brasil ia criando sua própria história,
desde 1500 até o fim dos anos 2010, seguindo todos os acontecimentos
importantes da história do país. Apesar de não ser um livro de história, ele
nos deixa a par de como foi viver em um país em constante transformação, desde
a invasão portuguesa em terras brasileiras, até os tempos atuais.
Em cada capítulo, vamos acompanhando cada uma dessas
mulheres, cada uma com uma história de vida única, às vezes influenciada por
seus ancestrais, as vezes seguindo sua vida conforme suas convicções e
intuições. Há histórias belas e felizes, mas também há histórias tristes, de
sofrimento e luta por sobrevivência.
Memos sendo o foco principal a vida dessas mulheres, não
conseguimos deixar de analisar o surgimento e desenvolvimento do Brasil como nação, acompanhando sua constante transformação: o povo indígena deixando de ser “amigo” dos portugueses para se
tornar escravo capturado em sua própria terra, dividindo seu sofrimento com os negros
vindos da África, compartilhando o mesmo sentimento de incompreensão e
impotência diante da situação em que foram colocados; a terra sendo tomada por
imigrantes ou pessoas que já se consideravam brasileiras, como se aquele lugar
não tivesse dono; a ascensão e queda de famílias, por imprudência ou por, após
a divisão de terras por parte de herdeiros e devido à falta de força monetária
ou política, perder suas propriedades para grandes agricultores; independência
de Portugal; ditadura militar; esperança e desilusão...
”Vocês estão surpreendidos por uma mulher assumir poder e mando naquela época? Pois não deveriam. Em qualquer época da história, em todo lugar, sempre houve mulheres de tanto poder quanto os homens. Sempre existiram, e não foram poucas. E a essas alturas já deu pra perceber que as mulheres que povoaram esta terra nos primeiros dois e três séculos, que foram para as lonjuras do sertão, viver no mato no país que começava, não poderiam ser fracas e submissas como muitos gostariam de pintá-las. Tinham de se virar. Do contrário não sobreviveriam nas condições inóspitas em que viveram, muitas vezes passando longos meses sem o marido em casa, tendo que se defender de muita coisa e criar suas próprias condições de sobrevivência. Claro, sempre houve todo tipo de homens e mulheres, fracos e fortes, espertos e tolos, inteligentes e limítrofes, bons e maus, poderosos e impotentes. Mas de uma coisa vocês podem estar certos: as mulheres que viviam no vasto, terrível e belo sertão dos primeiros séculos do país poderiam ser tudo, mas não eram nem bobas nem frágeis”. (Pag. 153, 154)
A história fala sim de mulheres impotentes, satisfeitas com sua
submissão ou inertes ao que acontecia com suas vidas, mas também mostra que
existiram mulheres fortes e que tomavam conta de suas vidas, que se tornaram de
extrema importância aos seus maridos e/ou comunidades, conseguindo manter um
status de poder, vivendo suas vidas e seus amores de forma livre. Histórias
criadas pela autora, mas com inspiração em histórias reais.
Dividido em cinco partes e estas dividindo-se em capítulos,
cada qual com o nome de sua protagonista, o narrador fala de forma pessoal,
como se estivesse falando diretamente com o leitor: “Pois, se é verdade que
o narrador onisciente supostamente sabe tudo, é verdade também que aqui, como
em todos os outros campos, há uma bela distância entre a teoria e a prática. O
narrador sabe de muita coisa, isso é certo, caso contrário nem poderia estar
lhes contando essa história, mas daí à onisciência, francamente, há um fosso
magnífico e um enorme exagero.” (Pag. 195)
O livro, originalmente, foi publicado pela primeira vez em
2002 e teve uma segunda edição em 2018, publicado com um capítulo extra,
fazendo uma atualização da situação do brasil até 2018, mais ou menos. Apesar
de ter gostado do livro todo, esse último capítulo não me pegou da mesma forma.
Lá foram colocadas muitas informações, tanto com relação ao país, quanto aos
personagens, e o tempo para mostrar o desfecho desse arco foi curto, deixando o
capítulo um pouco corrido. Gostei? Não muito. Posso estar completamente equivocada?
Com certeza. Achei o capítulo desnecessário? Não mesmo. Foi importante fazer
essa atualização, para continuar mostrando as transformações do Brasil nessas
primeiras duas décadas dos anos 2000, seus problemas sociais, resultado de anos
de desamparo às classes mais vulneráveis, desde sua colonização e que se
estendeu até os dias atuais, mostrar as fragilidades de nossa democracia, além de
tentar fazer um panorama de como chegamos até aqui e das diferenças políticas que
dividem o país.
A vida de mulheres em suas épocas, enquanto o Brasil se desenvolvia como nação, com uma narrativa rápida e fluída, que vale muito a pena ser lido e apreciado.
Sobre a autora

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