A Cabeça do Santo - Socorro Acioli
Em A cabeça do santo, acompanhamos a caminhada de Samuel, um rapaz pobre, que perde seu maior bem, sua mãe Mariinha, vítima de uma "doença de homem".
Mariinha, como todas as mulheres de sua família desde sua tataravó, sabia o dia exato de sua morte.
Quando chega sua hora, pede que Samuel cumpra 4 favores: acender 3 velas, sendo uma para a estátua do padim Cícero, uma para a de São Francisco de Canindé, e a última para Santo Antônio, por ser o Santo de devoção de sua mãe, todas as velas aos pés dos santos. E o último e mais importante favor é que fosse procurar seu pai e sua avó.
Munido com a mala velha da mãe onde coloca seus poucos pertences e com o papel com o endereço e nome do pai e avó, sai então de Juazeiro e caminha 16 dias, debaixo do sol e enfrentando o calor do sertão cearense, até chegar em Candeia, cidade onde seu pai deveria morar, deixando pelo caminho o pouco que tinha levado.
Samuel chega em Candeia em um estado lastimável, quase tão ruim quanto a visão da cidade, que mais parece uma cidade fantasma, abandonada. Alguns moradores ainda insistem em viver nessa terra sem esperança.
Ele consegue encontrar a casa da avó, mas essa nem um copo de água é capaz de oferecer ao pobre rapaz. Do pai, nem sinal.
Sua intenção era encontrar o pai e matar o homem que largou sua mãe grávida. Teve que deixar seu projeto pra outra hora e, por conselho da avó (única coisa que conseguiu da velha), foi se abrigar na cabeça do Santo Antonio, que estava abandonada no meio da mata.
Samuel passa a noite na cabeça e, por obra do acaso ou do próprio Santo, às 5h da manhã do dia seguinte, começou a escutar vozes. Percebeu então que o que as vozes pronunciavam eram orações para Santo Antônio, pedindo por um amor e casamento, algo proibido na cidade, pois aquele santo só trouxe desgraça para a cidade. No meio das vozes, escutou uma canção, que o fez se encantar e se apaixonar pela voz da mulher que ele nem sabia se era real.
Com a ajuda de Francisco, um adolescente que conheceu quando este entrou na cabeça para aproveitar o local abandonado para fins nada religiosos, eles tramaram um plano para ganhar um dinheiro em cima do desejo das moças da cidade.
O que parecia ser apenas um pequeno golpe, transformou a cidade, por conta da notícia do correspondente de Santo Antônio na terra, que ajudava a arrumar casamento para a mulherada. De terra abandonada por Deus (e por Santo Antônio), a cidade ganhou novos ares de prosperidade. Francisco que era ligeiro, conseguiu renda extra pra ele e para os pais.
Com uma narrativa rápida, o livro consegue te pegar e te segura até o fim. Vamos acompanhando todo o desenvolvimento de Samuel e seu comparsa Francisco, intercalando os capítulos com histórias paralelas, mas que explicam os fatos que se sucederam antes da história principal e que fizeram de Candeia a imagem da desgraça, e que amarram todos os personagens que vão aparecendo.
Socorro Acioli foi aluna em uma oficina ministrada por Gabriel Garcia Marques (aquele que escreveu Cem anos de solidão, sabe?). A proposta para a sua seleção era exatamente um rascunho do livro.
O livro é tão bem escrito que não nos questionamos sobre a veracidade dos fatos, só vamos seguindo o enredo, por mais incrível que as ocorrências dos fatos sejam.
Apesar de parecer ficção, existe mesmo uma cabeça de Santo Antônio decapitada no Ceará, na cidade de Caridade. Em 1984, construíram o corpo da estátua no alto de um morro, mas a obra foi interrompida em 1986 por falta de recursos e a cabeça, que foi montada no chão, nunca conseguiu chegar até seu corpo.
Abordando temas como religiosidade, política, desigualdade social, tudo ambientado no sertão cearense, Acioli não decepciona e entrega uma história rica e bem humorada, sendo um bom exemplo do que a literatura brasileira é capaz de apresentar.
Sobre a autora
Socorro Acioli nasceu em Fortaleza, Ceará, em 1975. É jornalista e doutora em estudos de literatura pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Foi aluna de Gabriel Garcia Márquez na oficina Como Contar um Conto, em San Antônio de Los Baños, Cuba, e publicou livros de diversos gêneros, como os ensaios biográficos Frei Tito e Rachel de Queiroz (ambos Edições Demócrito Rocha), e obras infantojuvenis, entre elas A bailarina fantasma (editora Biruta) e Ela tem olhos de céu (editora Gaivota), que recebeu o prêmio Jabuti de literatura infantil em 2013.


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