A Vegetariana - Han Kang (2007)


"Romance perturbador e único, A Vegetariana tem sido apontado como um dos livros mais importantes da ficção contemporânea. Uma história sobre religião, tabu, violência e erotismo escrita com a clareza atordoante das melhores e mais aterradoras fábulas."

(Texto da 4ª Capa, Ed. Todavia, 2007)

"Nunca tinha me ocorrido que minha esposa era uma pessoa especial até ela adotar o estilo de vida vegetariano. Para ser bem franco, não me senti atraído por ela na primeira vez em que a vi. Estatura mediana. O cabelo não era nem comprido nem curto. Tinha a pele levemente amarelada, as maçãs do rosto um pouco pronunciadas. Vestia-se de forma neutra, como se tivesse algum tipo de receio de se destacar. Calçando um par de sapatos pretos bastante sem graça, ela se aproximou da mesa em que eu a esperava. Não andava nem rápido nem devagar, sem firmeza, mas também sem muita fragilidade. 

Acabei me casando porque ela não tinha nenhum charme especial, e também por não ter notado defeitos muito gritantes. Uma personalidade dessas, sem frescor, brilhantismo ou refinamento, me deixava confortável. Não sentia necessidade de bancar o inteligente para conquistá-la e não precisava correr tentando não chegar atrasado aos nossos encontros. Tampouco sentia complexo de inferioridade ao me comparar com os típicos galãs dos catálogos de moda. Ganhei uma barriguinha já na segunda metade dos meus vinte anos. Meu corpo não desenvolvia massa magra nem mesmo com meus repetidos esforços de me exercitar. Até mesmo meu pênis pequeno, que costumava me deixar um tanto apreensivo, parou de me incomodar quando estava com ela." (Pag. 9)

 

O livro é dividido em 3 partes, cada uma com um narrador diferente e focando em um personagem:

Parte um: o marido (em primeira pessoa)

Parte dois: o cunhado (em terceira pessoa)

Parte três: a irmã (em terceira pessoa)

 

Yeonghye começa a perder o sono, devido à sonhos perturbadores com sangue e morte. Então, decide parar de comer carne.

Seu marido vai contando como estava satisfeito com sua rotina de vida "casa, trabalho, casa" e viu em Yeonghye a oportunidade de um casamento ideal para sua vida monótona: uma mulher sem grandes atrativos, cabelos nem compridos nem curtos demais, sem grandes ambições... ele, consciente de toda a sua mediocridade, incluindo atrativos físicos peculiares (se é que você me entende), sabia que não conseguiria uma mulher que fosse um pouco acima de sua média.

 

Mesmo sendo protagonista, Yeonghye tem pouca voz na história, deixando suas reflexões apenas em alguns trechos no primeiro capítulo, em que compartilha seus sonhos e os motivos que a levaram a parar de comer carne.

 

Quando decidiu ser vegetariana, Yeonghye cria uma ruptura, deixando de cumprir sua função de "mantedora do lar".

Ela subverte ao sistema, descumprindo suas funções de cuidadora, pois essa era a principal preocupação da família, além do próprio marido, que pensou que poderia morrer de fome por não ter o que comer em casa (na verdade, só não teria mais carne ou derivados em casa), ao que Yeonghye responde: "Mas aqui você só toma café da manhã mesmo. Pode comer carne a hora que quiser no almoço e no jantar... Não vai morrer só porque não come carne pela manhã." (Pag. 18)

Para ele, a cunhada, mais sensata e desejável, seria sua mulher ideal. 

 

Na perspectiva das outras partes do livro, conhecemos o cunhado de Yeonghye, um artista, que sentiu uma atração pela cunhada desde o princípio, e que se torna mais forte quando descobre que ela ainda tem a “mancha mongólica”. Vive às custas da esposa bem-sucedida, que lhe dá total liberdade para trabalhar em sua arte.

E por último Inhye, irmã de Yeonghye, que se torna a última pessoa que continua ao lado da irmã, quando esta já está bem debilitada. Ela é dona de uma loja de cosméticos e conseguiu sua independência financeira muito cedo. Acredito que por ironia da autora, alguém que trabalha para o bem estar de seus clientes, além de ter se dedicado aos cuidados do pai, marido, filho, deixou de cuidar de si mesma. Inhye, em certo ponto, se questiona se foi com a loucura da irmã que conseguiu manter sua sanidade.

 

No texto há varias sutilezas que parecem não ser nada, mas entregam muito. É o caso do sutiã, que sempre foi um incômodo para Yeonghye, representado como algo que a prende e sufoca. Seu desejo era ser como uma árvore na floresta: com raízes que a prendesse em algo que lhe desse plenitude, não à família ou convenções sociais. 

 

Sobre a conexão com o Movimento 4B...

 

O movimento feminista na Coreia do Sul não é algo novo, mas ganhou força em 2016, quando uma jovem de 23 anos foi morta em um banheiro público, próximo a uma estação de metrô em Seul, por um homem que diz ter cometido o crime por sempre ter se sentido menosprezado pelas mulheres.

Em um país onde a misoginia e o patriarcado são fortemente estabelecidos pela sociedade, mulheres buscam uma forma de guiarem suas vidas fora dos papéis tradicionais de gênero. 

A Coreia do Sul ocupa o último lugar entre os membros da OCDE com relação aos índices de disparidade salarial entre gêneros.

Embora o livro não tenha relação ao movimento, o 4B (que surgiu como um incentivo para que cada mulher faça suas escolhas, de forma independente e individual) representa quatro princípios, sendo eles: bihon (sem casamento), bichulsan (sem parto), biyeonae (sem namoro) e bisekseu (sem sexo). 

 

As questões que ecoam no livro e que se assemelham ao movimento são bem claros: 

 

O marido de Yeonghye decide quando é hora de terem um filho, sem haver uma conversa com a esposa antes.

Os maridos abusam sexualmente de suas esposas: Yeonghye passa a dormir de calça jeans para evitar o esposo; sua irmã tem que ouvir do marido "aguente firme" durante relações forçadas.

O pai das meninas era um homem extremamente violento, castigando principalmente Yeonghye. A irmã conseguia passar ilesa pelas agressões, pois fazia uma sopa para o pai - ela afirma que preparar a sopa não era cuidado, mas, sim, covardia e autodefesa. 


Para finalizar...

Por mais que se entregue do livro em qualquer resenha que seja feita, cada leitura dá uma interpretação diferente para o leitor. 

Han Kang foi totalmente feliz na narrativa, falando sobre opressão, liberdade e sanidade. Ela explora sentimentos profundos da cultura coreana, que talvez doramas e K-pop não sejam capazes de entregar. 


Sobre a autora

Agraciada pelo Prêmio Nobel de Literatura em 2024, Han Kang nasceu na Coreia do Sul em 1970.

Traduzida para dezenas de idiomas, é autora de Atos humanos e O livro branco, entre outras obras.


Referências

https://www.bbc.com/portuguese/articles/c8d96qrd32no

https://theconversation.com/a-woman-is-not-a-baby-making-machine-a-brief-history-of-south-koreas-4b-movement-and-why-its-making-waves-in-america-243355

https://theconversation.com/4b-how-south-korean-women-are-leading-a-radical-movement-against-misogyny-243296

https://open.spotify.com/episode/2AX0PP4om7ToMQRvawmbIU?si=vMQbzx7NSROUFG1qvCe57g



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