"Romance perturbador e único, A Vegetariana tem sido apontado como um dos livros mais importantes da ficção contemporânea. Uma história sobre religião, tabu, violência e erotismo escrita com a clareza atordoante das melhores e mais aterradoras fábulas."
(Texto da 4ª Capa, Ed. Todavia, 2007)
"Nunca tinha me ocorrido que minha esposa era uma pessoa especial até ela adotar o estilo de vida vegetariano. Para ser bem franco, não me senti atraído por ela na primeira vez em que a vi. Estatura mediana. O cabelo não era nem comprido nem curto. Tinha a pele levemente amarelada, as maçãs do rosto um pouco pronunciadas. Vestia-se de forma neutra, como se tivesse algum tipo de receio de se destacar. Calçando um par de sapatos pretos bastante sem graça, ela se aproximou da mesa em que eu a esperava. Não andava nem rápido nem devagar, sem firmeza, mas também sem muita fragilidade.O livro é dividido em
3 partes, cada uma com um narrador diferente e focando em um personagem:
Parte um: o marido
(em primeira pessoa)
Parte dois: o cunhado
(em terceira pessoa)
Parte três: a irmã
(em terceira pessoa)
Yeonghye começa a
perder o sono, devido à sonhos perturbadores com sangue e morte. Então, decide
parar de comer carne.
Seu marido vai
contando como estava satisfeito com sua rotina de vida "casa, trabalho,
casa" e viu em Yeonghye a oportunidade de um casamento ideal para sua vida
monótona: uma mulher sem grandes atrativos, cabelos nem compridos nem curtos
demais, sem grandes ambições... ele, consciente de toda a sua mediocridade,
incluindo atrativos físicos peculiares (se é que você me entende), sabia que
não conseguiria uma mulher que fosse um pouco acima de sua média.
Mesmo sendo
protagonista, Yeonghye tem pouca voz na história, deixando suas reflexões
apenas em alguns trechos no primeiro capítulo, em que compartilha seus sonhos e
os motivos que a levaram a parar de comer carne.
Quando decidiu ser
vegetariana, Yeonghye cria uma ruptura, deixando de cumprir sua função de
"mantedora do lar".
Ela subverte ao sistema, descumprindo suas funções de cuidadora, pois essa era a principal preocupação da família, além do próprio marido, que pensou que poderia morrer de fome por não ter o que comer em casa (na verdade, só não teria mais carne ou derivados em casa), ao que Yeonghye responde: "Mas aqui você só toma café da manhã mesmo. Pode comer carne a hora que quiser no almoço e no jantar... Não vai morrer só porque não come carne pela manhã." (Pag. 18)
Para ele, a cunhada,
mais sensata e desejável, seria sua mulher ideal.
Na perspectiva das
outras partes do livro, conhecemos o cunhado de Yeonghye, um artista, que
sentiu uma atração pela cunhada desde o princípio, e que se torna mais forte
quando descobre que ela ainda tem a “mancha mongólica”. Vive às custas da
esposa bem-sucedida, que lhe dá total liberdade para trabalhar em sua arte.
E por último Inhye,
irmã de Yeonghye, que se torna a última pessoa que continua ao lado da irmã,
quando esta já está bem debilitada. Ela é dona de uma loja de cosméticos e
conseguiu sua independência financeira muito cedo. Acredito que por ironia da
autora, alguém que trabalha para o bem estar de seus clientes, além de ter se
dedicado aos cuidados do pai, marido, filho, deixou de cuidar de si mesma. Inhye,
em certo ponto, se questiona se foi com a loucura da irmã que conseguiu manter
sua sanidade.
No texto há varias
sutilezas que parecem não ser nada, mas entregam muito. É o caso do sutiã, que
sempre foi um incômodo para Yeonghye, representado como algo que a prende e
sufoca. Seu desejo era ser como uma árvore na floresta: com raízes que a
prendesse em algo que lhe desse plenitude, não à família ou convenções
sociais.
Sobre a conexão com o
Movimento 4B...
O movimento feminista
na Coreia do Sul não é algo novo, mas ganhou força em 2016, quando uma jovem de
23 anos foi morta em um banheiro público, próximo a uma estação de metrô em
Seul, por um homem que diz ter cometido o crime por sempre ter se sentido menosprezado
pelas mulheres.
Em um país onde a
misoginia e o patriarcado são fortemente estabelecidos pela sociedade, mulheres
buscam uma forma de guiarem suas vidas fora dos papéis tradicionais de
gênero.
A Coreia do Sul ocupa
o último lugar entre os membros da OCDE com relação aos índices de disparidade
salarial entre gêneros.
Embora o livro não tenha relação ao movimento, o 4B (que surgiu como um incentivo para que cada mulher faça suas escolhas, de forma independente e individual) representa quatro princípios, sendo eles: bihon (sem casamento), bichulsan (sem parto), biyeonae (sem namoro) e bisekseu (sem sexo).
As questões que ecoam
no livro e que se assemelham ao movimento são bem claros:
O marido de Yeonghye
decide quando é hora de terem um filho, sem haver uma conversa com a esposa
antes.
Os maridos abusam
sexualmente de suas esposas: Yeonghye passa a dormir de calça jeans para evitar
o esposo; sua irmã tem que ouvir do marido "aguente firme" durante
relações forçadas.
O pai das meninas era
um homem extremamente violento, castigando principalmente Yeonghye. A irmã
conseguia passar ilesa pelas agressões, pois fazia uma sopa para o pai - ela
afirma que preparar a sopa não era cuidado, mas, sim, covardia e
autodefesa.
Para finalizar...
Por mais que se entregue do livro em qualquer resenha que seja feita, cada leitura dá uma interpretação diferente para o leitor.
Han Kang foi
totalmente feliz na narrativa, falando sobre opressão, liberdade e sanidade.
Ela explora sentimentos profundos da cultura coreana, que talvez doramas e
K-pop não sejam capazes de entregar.
Sobre a autora
Agraciada pelo Prêmio Nobel de Literatura em 2024, Han Kang nasceu na Coreia do Sul em 1970.
Traduzida para dezenas de idiomas, é autora de Atos humanos e O livro branco, entre outras obras.
Referências
https://open.spotify.com/episode/2AX0PP4om7ToMQRvawmbIU?si=vMQbzx7NSROUFG1qvCe57g

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