Distrito Federal: Baixo Paraíso - Isabella de Andrade (2023)

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Baixo Paraíso - Isabella de Andrade


"Senti que minha vida mudava quando segurei pela terceira vez, agora sem furtar gavetas, a caixa rodeada pela tarja preta, a promessa de um corpo que coubesse, enfim, em todos os espaços. Aos quinze anos caber em tudo era a única alternativa possível. Aprendi que a gente come muito quando quer escapar do mundo engolindo o mundo todo pra dentro da gente. Eu sempre gostei de me empanturrar." (Texto da 4° capa, Ed. Diadorim, 2023)

Em uma pequena cidade do cerrado goiano, chamada Baixo Paraíso - onde tudo leva o nome "Paraíso", como se ali nascessem as melhores coisas do mundo -, vive Marília, uma jovem que sempre buscou seu lugar.

Desde criança luta para se encaixar. Ouvia constantemente pedidos de explicações sobre o por quê de ser como era. Ser gorda era um rótulo que carregava, mas só percebeu o peso disso quando ouviu de outra criança: "ela é gorda, mas é feliz".

A infância

Marília era uma criança solitária, e sempre vivenciou a crueldade de que o mundo é capaz.

"...soube da Bárbara, a menina nova apresentada em frente a toda a sala pela diretora. Meu peito disparou. Finalmente alguém mais gorda do que eu. [...] Bárbara caiu na rampa da escola e rolou como num teatro. A poça de lama sujou o uniforme claro na pancada final um show pirotécnico. A criançada foi à loucura, risos, palmas e gritos enquanto Bárbara tentava erguer o peso até a diretoria. Eu aplaudi pulando enquanto segurava no figado a vontade de chorar. [...] Aqui aplaudindo de pé eu também sou substância tóxica. Quando é que a gente vai poder levar um tombo em paz, Bárbara?" (P. 35)

A comida 

Marília cresceu cercada por comida - especialmente na fazenda dos avós, com ingredientes frescos e pratos caseiros. A autora descreve as sensações mostrando a importância afetiva da comida na narrativa. 
Comer era um pazer, mas com o tempo se tornou algo vergonhoso. Ela começa a perceber olhares, como se estivesse cometendo um pecado apenas por comer.

A Amizade, o amor, os segredos...

Marília se torna amiga de Gabriela, uma menina magra, que representa o "padrão perfeito". A admiração (ou inveja, em alguns momentos) que Marília sente por Gabriela, transforma-se em paixão, ainda que não compreenda totalmente esse sentimento.

A relação de amizade/amor das duas acontece sob as condições de Gabriela. Apesar de gostar do que acontece entre elas, mantem tudo em seguedo. As duas sabem que tem sentimentos recíprocos e descobrem os prazeres possíveis nessa relação. E assim vivem, às escondidas, até que um fato mórbido acontece, fazendo com que Gabriela deixe Baixo Paraíso. 

O preço 

"Vinte quilos a menos e eu era a nova sensação na cidade. Ninguém se importa que você beba muito ou vomite ou coma só comida enlatada [...] Contanto que esteja magra. [...] Por fora, nunca importava o poço em que eu me enfiava por dentro. Todo mundo me dizia linda e eu aprendi a adorar tanta atenção. Queria ser vista. Lembrada." (P. 147)

Quanto uma pessoa precisa mudar para se tornar compatível com uma sociedade que exige tanto uma aparência perfeita?

O livro não pretende em momento nenhum ser ofensivo, mas ele se propõe a mostrar até que ponto uma pessoas pode chegar buscando a perfeição, não importando os meios, desde que o objetivo seja atingido. 
Marília chega a extremos para conseguir remédios que a ajudassem a diminuir seu peso, e poder enfim se mostrar como todos esperavam, porque uma pessoa com um rosto tão bonito não poderiam ter um corpo daquele.

A resistência 

"Tudo no chão do cerrado é tóxico demais para as plantas não adaptadas e as que se adaptam, como eu, precisam retorcer um pouco as arestas para seguir crescendo na região. Todas as árvores, e pessoas e bichos, se contorcem juntos e curvam o corpo como num eterno baile. [...] São as árvores mais bonitas que já vi. A curvatura de troncos e galhos faz criar uma dança, movimento constante que se expande quando passam rápido pela janela da estrada. Ainda que paradas, ainda que em solo seco, ainda que em fogo, dançam. [...] O cerrado não é linear. No solo, os nutrientes são escassos e, ainda que pouco, ainda que interrompida, ainda que entre freios e mortes, a árvore do cerrado cresce." (P. 206)

Marília aprende a enxergar a beleza que há no cerrado, sua terra, e na beleza de si mesma - retorcida, mas viva.

O livro não é sobre se reinventar, mas sobre se descobrir. É sobre encontrar felicidade dentro dos próprios espaços e transformá-los em lugar seguro, descobrir o seu próprio "Paraíso".

Sobre a Autora

Isabella de Andrade nasceu na Asa Norte, em Brasília, Distrito Federal. É escritora, jornalista e atriz. Publicou dois livros pelas Editora Patuá, Veracidade (2015) e Pelos olhos de ver o Mar (2019). É idealizadora do projeto Elas na Escrita e uma das organizadoras da coletânea Imagens de Coragem (2023), que reúne autoras de diferentes regiões do país. Considera Baixo Paraíso seu primeiro romance.

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