Dias Perfeitos - Raphael Montes (2014)

Téo é um jovem estudante de medicina, solitário, bom filho, bom aluno, uma pessoa comum, vivendo uma vida comum.

Na faculdade, tornou-se amigo de apenas uma pessoa, mas com o fim do semestre, sabia que nunca mais voltaria a ver sua amiga.

Enquanto sofria com a separação da amiga, sua mãe o lembra de um churrasco ao qual foi convidada, e diz que ele tem que ir com ela. Mesmo a contra gosto, acaba indo. 

No churrasco, Téo fica isolado, evitando contato com os outros convidados. Então aparece ao seu lado Clarice. Uma jovem de espírito livre e cheia de vida, projetos e sonhos.

Téo não esperava, mas a cada minuto que Clarice permanece ao seu lado, ele vai descobrindo um sentimento novo, uma vontade de passar o resto de suas vidas juntos. Ele enxerga um futuro feliz ao lado daquela jovem. Descobre-se apaixonado por Clarice.


Após a despedida dos dois, Téo inicia uma busca para descobrir onde vive, por onde anda, com quem se relaciona, o que come, o que faz Clarice. Como tinha conseguido o número do celular dela por meio de uma manobra perspicaz, após algumas ligações, descobre tudo o que precisava e começa a stalkear a moça. 

Em um desses momentos de observação, Clarice se encontra em uma situação de perigo. Téo a ajuda a voltar pra casa, e acaba sendo questionado pela mãe da moça sobre quem ele era. Clarice, para se despistar de mais perguntas, responde que são namorados. Isso desperta em Téo a esperança de que todos os seus desejos e pensamentos ao lado dela se tornam realidade.

No dia seguinte, volta a visitar Clarice, já na condição de namorado. Clarice tenta ser o mais simpática possível, tentando explicar que ela não quer nada com ele. Na fúria despertada pela sua recusa, Téo golpeia Clarice, que desmaia. Aproveitando que ela estava organizando suas malas para viajar, pega todas as coisas, mais a moça, coloca tudo no carro e vai embora. 


Desde o começo do livro já percebemos que Téo não é o namorado dos sonhos, possivelmente só encontrado nos piores pesadelos.

Sua vida solitária não se dá por timidez ou algo do tipo. Téo não gosta de pessoas, ninguém é bom o suficiente para ele.

Ele trata sua mãe com carinho, pois isso é o que todos esperam dele. Por ter ficado paralítica em decorrência de um acidente de carro, ele enxerga a mãe como um peso que ele terá que carregar por muitos anos.

No decorrer dos acontecimentos, percebemos que Téo é um cara desprezível: egoísta, egocêntrico, machista, sexista, misógino, homofóbico, capaz das maiores atrocidades... Ele rouba a vida de Clarice para si, para que ela aprenda com a convivência à amá-lo da mesma forma que ele a ama. Todas as suas ações, por mais perversas que sejam, segundo ele, são tomadas pelo bem da relação.


Téo faz tudo pensando no bem do casal e nunca vê erros em suas atitudes. Para ajudar a justificar sua insanidade, a narrativa do livro em terceira pessoa descreve tudo o que Téo sente, de forma natural, tentando mostrar todo o terror psicológico aplicado sobre Clarice como algo totalmente aceitável. As sensações, constatações, opiniões, tudo é descrito como algo normal, como se não tivesse nada demais ou absurdo, como se a narrativa fosse feita por uma consciência de Téo, ou como uma autoafirmação de que ele estava agindo corretamente. E a sensação da leitura se torna pior nesse sentido... eu tinha uma mini crise de ansiedade cada vez que pegava o livro para ler. 


Durante o tempo em que estiveram juntos, algumas pessoas viram Clarice e poderiam tê-la ajudado, considerando que a forma como ela era vista poderia levantar suspeitas de que algo estava errado. Mas como essas pessoas estavam sendo recompensadas de alguma maneira, qualquer anormalidade se apagava diante disso.


Em resumo, o que dá pra entender é que Téo não ama quem Clarice é. Ele ama a imagem que ele criou dela. Ele não a ouve, não vê suas queixas e pedidos como algo real, tratando tudo o que Clarice fala como frescura, exagero ou transtorno metal, como bipolaridade (diagnosticada por ele mesmo), por exemplo. Então, para que ela se torne a pessoa que ele deseja, ela precisará se ajustar, ou ser ajustada...


Com uma narrativa rápida e capaz de prender até o fim, Dias Perfeitos é o suspense que você precisa ler hoje.


Sobre o Autor

Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Escritor e roteirista, publicou os romances Suicidas, Dias perfeitos, O vilarejo, Jantar secreto e Uma mulher no escuro, vencedor do Prêmio Jabuti 2020. Seus livros estão traduzidos em mais de 25 países e têm os direitos de adaptação vendidos para o teatro e o cinema. Escreveu os filmes Praça Paris, A menina que matou os pais e O menino que matou meus pais. É criador, roteirista-chefe e produtor-executivo de Bom dia, Verônica, série de sucesso na Netflix, vencedora do prêmio APCA 2020 nas categorias melhor ator, melhor atriz e melhor dramaturgia.


Adaptações

Além dos trabalhos já citados acima, veja outros trabalhos na TV e cinema que levam seu nome:

  • Vale lembrar que Bom dia, Verônica, publicado em 2022, em parceria com Ilana Casoy, serviu de inspiração para a série da Netflix lançada em 2020 e finalizada em sua terceira temporada em 2024.
  • Beleza Fatal, novela que estreou em 2025 pela Max não é adaptação de um livro, mas é uma novela escrita pelo próprio Raphael.
  • Uma família feliz, publicado em 2024, virou filme no mesmo ano, protagonizado pela Grazi Massafera e pelo Reynaldo Giancchini.
  • Dias Perfeitos (esse mesmo) vai virar série e tem estreia prevista em 14 de agosto pela Globoplay.

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