Paraná: Suíte Tóquio - Giovana Madalosso (2020)

Leia mulheres brasileiras 

Suíte Tóquio - Giovana Madalosso


"Estou raptando uma criança. Tento afastar esse pensamento, mas ele persiste enquanto descemos pelo elevador, cumprimentamos o Chico, saímos pelo portão. São coisas que fazemos todos os dias, descer, cumprimentar o Chico, sair pelo portão, andar pisando só nas pedras pretas ou nas brancas da calçada, mas hoje é diferente mesmo que eu não esteja fazendo nada diferente, porque tenho a sensação de que o exército branco* olha pra mim." (Suíte Tóquio, Pag. 9, Ed. Todavia)(* esse é o apelido dado por Fernanda para as babás que sempre estão andando pelo bairro pela manhã)

Nessa história, meio dramática, meio cômica, acompanhamos duas mulheres com vidas opostas, mas que estão ligadas por uma terceira pessoa.
Nele somos apresentados à Maju e Fernanda, que intercalam os capítulos como narradoras e vão contando fatos sobre suas vidas, além de acompanhar o desenrolar desse rapto e tudo o que vai se passando no decorrer das 24 horas, aproximadamente, em que a história se passa.

Mãe de Cora, Fernanda é casada com Cacá, uma relação que definha, uma vez que Fernanda passa a lidar com uma nova paixão fora do casamento. Ela não abriu mão de sua carreira em função da maternidade, mas também não se tornou uma mãe, terceirizado essa função para Maju, a babá.
Fernanda recebe uma proposta irrecusável de promoção, e fica na dúvida se seria viável, pois mesmo sendo de forma remota, seu novo trabalho seria com fuso-horário dos EUA, o que a forçaria a ter que trabalhar até tarde da noite, dificultando ainda mais os cuidados da filha. Ela então propõe a Maju que passe a trabalhar em tempo integral no apartamento. Com a proposta de um aumento substancial em seu salário, Maju acaba aceitando, só que isso lhe custaria  caro.

Maju precisou começar a se cuidar sozinha muito nova. Criada pela avó até a adolescência, tinha prometido à ela que estudaria, faria faculdade, mas as coisas não deram muito certo e acabou virando empregada doméstica. Foi abusada quando jovem, o que fez com que perdesse a vontade de ter um relacionamento. Até que conhece Lauro, com quem inicia uma relação estável, com a esperança de construir sua própria família. E, em seu trabalho na casa da Fernanda, Maju tem Cora, por quem sente um profundo carinho, quase maternal. 
Para que Maju tivesse um pouco de "liberdade" e a não tivesse desculpas para não aceitar a nova proposta de trabalho, Fernanda estipulou o "dia da visita íntima" para que o casal Lauro + Maju pudesse realizar o sonho de ter um filho. Além disso, reformou o quartinho de empregada e o transformou no que apelidou de Suíte Tóquio, por ter ficado super parecido com as suítes temáticas de hotéis. Lindo!
Maju nunca teve perspectivas ambiciosas de futuro, na verdade ela já nem esperava muito da vida. Ela é uma pessoa que nunca tinha recebido amor, até encontrar Lauro, mas a relação dos dois infelizmente não conseguiu se sustentar com a nova escala de trabalho.  

Fernanda está com uma carreira bem estabelecida, tem um bom salário, apartamento, carro. É a chefe de sua família. Ao marido, ficou a responsabilidade pelos cuidados da casa, que incluíam as rotinas da filha. Apesar de estar cercada de um aparente cuidado, Cora esta à parte na vida da família, tanto que tinha com Maju as mesmas reações que tinha com mãe, tratando as duas quase da mesma maneira. A única diferença era a forma como chamava cada uma.

A sequência do sequestro não sai exatamente do jeito que esperávamos e muito menos do jeito que Maju havia planejado. Maju quer criar a menina como sua filha, isso já vemos no começo do livro, porque ela já cuida da menina como se fosse dela e sabe que Cora a vê quase como sua mãe. O que se dá após o sequestro é uma sequência de infortúnios e a gente se prende ao livro para poder saber como toda aquela bagunça vai se ajeitar.

Apesar de ser uma FDP e egoísta, executando qualquer pequena boa ação pensando em sua própria redenção e não para benefício do próximo, Fernanda serve para quebrar estereótipos. Sentimos desprezo por ela, pois apesar de ela trabalhar e sustentar a casa, ela não cumpre seu papel de mãe, ela menospreza qualquer pessoa ou regra, além daquelas que lhe convém, fazendo com que Cora seja apenas alguém que mora em seu apartamento. A autora, ao meu ver, quis apresenta-la invertendo os papeis, como se seu papel na história fosse como o do homem da casa, um pai de família, que trabalha muito, possui uma relação extraconjugal, e acaba não se interessando pelos problemas domésticos e pelos filhos. Será que teríamos as mesmas opiniões se os perfis de Fernanda e Cacá estivessem invertidos?

Suíte Tóquio não é um livro apenas sobre maternidade. Ele é sobre o rico absorvendo a vida do pobre, sobre os privilégios de quem manda e do "privilégio" do trabalhador por ter um salário, sobre oferecer o mínimo às pessoas como se fosse o máximo.

Sobre a autora
Giovana Madalosso nasceu em Curitiba, Paraná, em 1975, e vive em São Paulo. É autora de A teta racional, finalista do Prêmio Biblioteca Nacional, e de Tudo pode ser roubado, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e publicado pela Todavia.

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