A tragédia que inspirou a música Blue Sky Mine, da banda Midnight Oil.
Em 1943, a mineradora Australian Blue Asbestos (ABA; em tradução livre seria Amianto Azul Australiano) iniciou suas operações de mineração e moagem de amianto azul, na cidade de Wittenoom, na Austrália Ocidental. A empresa era uma subsidiária da Colonial Sugar Refining (CSR), que surgiu em 1855, tendo como atividade principal o refino de açúcar e destilarias. Com o passar do tempo, ela expandiu seus negócios, passando para a área de construção.
A ABA apresentou um plano de negócios para o governo australiano, expondo seu interesse em explorar uma área rica em amianto azul. Essa área já estava sendo explorada por Lang Hancock desde os anos 1930. A ABA comprou o local, e após algum tempo, com a expansão do negócio, impulsionada pelo boom econômico pós Segunda Guerra, veio a necessidade de contratar mais funcionários, o que trouxe centenas de trabalhadores para as minas de amianto, juntamente com suas famílias, encantados com a oportunidade de um trabalho estável, uma casa cedida pela própria empresa e um salário.
Com o mundo tendo passado pela grande depressão (1929) e a Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945), muitas pessoas ainda buscavam formas de continuar vivendo com dignidade e meios de obter alguma estabilidade. A proposta da ABA parecia uma oportunidade incrível, porém...
As condições de trabalho eram totalmente insalubres, considerando principalmente o alto risco de contaminação por amianto. Dois médicos chegaram a avisar, nos anos 1948 e 1950, sobre esse risco (vide Irmãos à Obra: Casas antigas construídas com amianto) e sobre as condições de trabalho nas minas, que traziam perigo real de morte dos trabalhadores. O Departamento de Minas apenas ignorou as observações. Os riscos à saúde dos trabalhadores eram menos importantes que os interesses no crescimento e desenvolvimento da região.
Apesar da contaminação por amianto já ser conhecida desde os anos 1900, a maioria dos proprietários de empresas voltadas para o material preferiam ignorar essa informação.
Os principais danos causados pela exposição continua por amianto são: asbestose (doença causada pela deposição de fibras de asbesto nos alvéolos pulmonares, o que reduz a capacidade de realizar trocas gasosas, além de promover a perda da elasticidade pulmonar e da capacidade respiratória); câncer de pulmão (pode estar associado a outros tipos de adoecimento, como a asbestose. Estima-se que 50% dos indivíduos que tenham asbestose venham a desenvolver câncer de pulmão); mesotelioma (uma forma rara de tumor maligno, que afeta a pleura, peritônio, pericárdio e tunica vaginalis testis, podendo produzir metástases por via linfática em aproximadamente 25% dos casos (INCA, 2020)).
O primeiro caso confirmado de uma doença relacionada ao amianto em um trabalhador da mina de Wittenoom ocorreu em 1960. Dos 20.000 trabalhadores que passaram pela mina e seus familiares, ocorreram pelo menos 2.000 mortes, mas esse número pode chegar à 4.000 mortes, considerando grupos que passaram menos tempo nas minas, como trabalhadores temporários, por exemplo (esses números são apenas uma estimativa).
E o que a música tem a ver com tudo isso?
Midnight Oil é uma banda que surgiu em Sidney, Austrália, em 1975.
A música Blue Sky Mine, que faz parte do álbum Blue Sky Mining de 1990, já nos remete à ABA (Australian Blue Asbestos), que era a mineradora de amianto azul da cidade de Wittenoom, em referência à uma Mina Céu (Amianto) Azul.
Há um trecho que se repete no decorrer da música e que fala sobre a necessidade de se trabalhar (ser explorado), mesmo que isso traga riscos, porque esse é o trabalho que temos pra hoje:
But if I work all day on the Blue sky mine (There'll be food on the table tonight)
Mas se eu trabalhar o dia todo na mina "céu azul" (haverá comida na mesa essa noite)
Ainda que eu ande para cima e para baixo na minha "céu azul" (haverá dinheiro no meu bolso essa noite)
Aqui a letra fala sobre a ganância e a que ela da importância. Conforme acompanhamos na história, a saúde dos trabalhadores era o menos importante, desde que eles chegassem à resultados lucrativos, não importando os meios utilizados para se chegar nesse objetivo:
And the company takes what the company wants.
E a empresa pega o que a empresa quer.
And nothing is so precious, as a hole in the ground.
E nada é mais valioso do que um buraco no chão.
O trecho em que eles deixam claro sobre quem estão falando:
And if the Blue Sky Mine Company won't come to my rescue
E se a Companhia Mina "Céu Azul" não vir me salvar
And if the Sugar Refining Company won't save me
E se a Companhia Sugar Refinadora não me salvar
Who's gonna save me?
Quem me salvará?
Na primeira linha, a letra se refere à Australian Blue Asbestos, a ABA, e na segunda, eles citam diretamente a Colonial Sugar Refining, a CSR, só para não restar dúvidas.
Poder público e privado viraram as costas para os trabalhadores, e não havia ninguém capaz de salvá-los. Aliás, havia sim, porém não havia interesse, desde que houvessem pessoas capazes de continuar gerando riqueza e recebendo migalhas.
A música se encerra com um tom de esperança:
In the end the rain comes down
No fim a chuva cairá
Whashes clean the streets of a blue sky town.
Lavando as ruas de uma cidade de céu azul.
A esperança de que as terras devastadas voltem a ser limpas novamente, mas...
... afinal, qual foi o fim dessa história toda?
As operações da mina se encerraram em 1966, devido ao alto número de acidentes e do risco de contaminação. Foi isso mesmo? NÃO!!! As operações foram encerradas porque a ABA não estava mais gerando lucro. Decidiram fechar a base e foram embora, deixando seu rastro de sujeira e destruição.
O governo da Austrália incentivou, em 1978, os moradores que permaneceram na área a procurar outro lugar para morar.
Entre 1986 e 1992, casas foram demolidas e os estabelecimentos públicos foram fechados. Atendimentos para serviços básicos eram feitos na cidade vizinha. Em 1993, o aeroporto foi fechado.
Em 2006, o governo australiano removeu o status de cidade para Wittenoon e desligou o sistema de abastecimento de energia.
Em 2007 o local da cidade foi oficialmente desativado e seu nome foi retirado do mapa.
Em 2008, após análise ambiental, a área foi considerada contaminada.
Em 2022, os dois últimos moradores da cidade foram forçados a sair. Sr. Hartimann vendeu sua casa para o governo australiano, mas sempre voltava para a cidade nas férias. Sobre as doenças ele diz "algumas pessoas pegam, outras não. Depende da constituição". A outra moradora, Sra. Thomas resistiu o quanto pode, mas aos 80 anos acabou sendo expulsa de sua casa por policiais.
Apesar de ter determinado o isolamento da cidade, os detritos continuam por lá. Governo e empresa empurram o problema um para o outro, impossibilitando uma possível recuperação da área. O problema ainda está longe de ser solucionado...
Os Banjima, povo nativo australiano, que vive ao redor de Wittenoom há milhares de anos, assumiu a responsabilidade pela revitalização da terra: Eles não têm escolha, dizem; é sua obrigação cultural e espiritual.
Referências
https://www.euromoney.com/article/27bjsstsqxhkmh0zz0g23/opinion/csrs-blue-sky-thinking/#:~:text=The%20song%20is%20actually%20about,cancer%20in%20the%20subsequent%20years.
https://www.australianasbestosnetwork.org.au/asbestos-history/asbestos-wittenoom/working-wittenoom/
https://www.australianasbestosnetwork.org.au/asbestos-history/asbestos-wittenoom/arrival-csr/
https://www.australianasbestosnetwork.org.au/asbestos-history/health-disaster-2/growing-medical-awareness/
https://dictionaryofsydney.org/entry/colonial_sugar_refining_co_ltd
https://www.naa.gov.au/blog/selling-wittenoom-dream
https://www.hazcon.com.au/blog/wittenoom--australia-s-most-notorious-asbestos-mine-and-town
https://www.midnightoil.com/the-band/
https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/causas-e-prevencao-do-cancer/exposicao-no-trabalho-e-no-ambiente/amianto#:~:text=Os%20principais%20acometimentos%20relativos%20a,pulmonar%20e%20da%20capacidade%20respirat%C3%B3ria.
https://www.wa.gov.au/system/files/2021-04/CL-BRC-Wittenoom_brochure_0.pdf
https://www.nytimes.com/2022/09/29/world/australia/wittenoom-asbestos-mining.html

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