Leia Mulheres Brasileiras
“O quartinho de empregada de Eunice é como qualquer outro: um
cubículo mal iluminado e sem janelas. Solitário.
Dá na cozinha, na lavanderia, na área de serviço e no elevador de
mesmo nome. Chegar e sair é também por ali, pelos fundos, às escondidas. Lógica
de apartamento. De apartheid. De segregação. Elo de uma corrente que fez dos
condomínios de alto padrão uma tecnologia do cárcere – para não dizer de
cativeiro – e metáfora arquitetônica do Brasil.
À frente desse empreendimento, do porteiro ao jardineiro, das babás às cuidadoras, da empregada que atende à porta às copeiras servindo a mesa, um mundo de pessoas que, como Eunice, estão em toda parte, visíveis, cuidado dos outros enquanto cuidam também de tecer suas redes de sociabilidade e apoio mútuo. Solidárias – sobretudo.
Para elas, a conquista de uma solidão outra – não a forçada, mas a do cuidado de si e do autoconhecimento – a, para além de esforço, controle e tenacidade, demanda uma soltura de espírito que se experimenta como fuga, rota para a liberdade.”
(Texto da 4ª Capa, Ed. Companhia das Letras, 2022)
Solitária fala das pessoas invisíveis, aquelas que fazem a máquina da sociedade
girar, mas que são totalmente ignoradas pelas classes sociais que se dizem mais elevadas. São
vistos como escória, como pessoas indignas de respeito, que devem se curvar e
se sentir agradecidas diante de qualquer "benefício" oferecido por
quem tem poder.
A história acontece em torno de Eunice, empregada de uma família que mora na
cobertura de um edifício de luxo, e Mabel, filha de Eunice, que por necessidade
acaba indo morar com a mãe no quartinho de empregada, disponibilizado no apartamento da família.
O livro é dividido em 3 partes: a primeira parte é narrada pela Mabel, a
segunda pela Eunice e a terceira por cômodos e ambientes que de alguma forma
dizem respeito às duas (estranho, mas é isso mesmo).
Mabel começa o livro narrando uma discussão com a mãe, que é testemunha de uma
tragédia que aconteceu na cobertura dos agora ex-patrões, e que pode incriminar
um dos membros da família.
Mas antes de falar sobre o crime, Mabel volta no tempo e conta como foi parar
na casa daquela família.
Mabel era cuidada pela vó, enquanto a mãe passava a semana no trabalho. Quando a
avó fica doente, Eunice passa a levar a filha com ela, o que a princípio deixa
a patroa, D. Lúcia, extremamente irritada, mas que depois acaba tolerando a
situação.
Nos primeiros capítulos, Mabel relembra um acontecimento de quando ainda era
criança. O sobrinho de D. Lúcia cai na piscina, enquanto acontece uma festa no terraço do apartamento com os pais do garoto e alguns de seus amigos, todos
adultos. A babá de 13 anos, que cuida do menino, não estava autorizada
a ficar na área externa onde acontecia a festa e teve que ficar na sala de
estar com vista para lá. Momentos antes do acidente, ela precisou ir ao banheiro e quando voltou
para a sala, Mabel perguntou quem era o menino se afogando.
A babá foi responsabilizada pelo que aconteceu e demitida. Eunice também foi
demitida, talvez por ser cúmplice (?).
Logo após à demissão, quando Eunice já estava indo embora, os patrões,
como pessoas boas que eram, pedem para que ela volte a trabalhar no
apartamento, pois D. Lúcia descobre que está grávida e precisarão de ajuda.
Eunice já é de casa, praticamente da família, e concluíram que seria difícil ensinar
o trabalho para outra pessoa. Porém, com o nascimento do bebê, as despesas do
casal iriam aumentar, com isso o salário de Eunice sofreria um reajuste (para
menos, claro)... "Tudo bem pra você né, Eunice?!"
Eunice aceita voltar para o emprego, com um salário (baixo) garantido e, de brinde, tem uma auxiliar ao seu lado pra ajudar a cuidar da bebê que vai nascer. Bem conveniente para a família rica!
Um dos atos de maior rebeldia no livro foi de Mabel, que diante do
questionamento do Seu Tiago, marido de D. Lucia, sobre o que gostaria de ser, responde que gostaria de se tornar médica. O deboche do patrão foi a motivação que ela
precisava para estudar medicina.
A narrativa do livro não se resume apenas ao apartamento de cobertura. Pelo
prédio inteiro vamos descobrindo vários tipos de abusos e crimes, inclusive
trabalho análogo à escravidão e cárcere privado.
Solitária não se trata apenas do trabalho solitário dessas pessoas
invisibilizadas, mas tem relação ao quartinho da empregada, que também pode ser
considerada uma cela, uma prisão, uma solitária, onde a pessoa fica presa por
anos, deixando de viver sua própria vida em troca de tornar a vida de outras
mais confortável, onde crianças não podem agir como tal, para evitar atrapalhar
o conforto e a tranquilidade de quem paga o salário, uma vez que o filho do empregado também é considerado empregado.
Sobre a
Autora
Nascida no Rio
de Janeiro, Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista. É autora de Água
de barrela (2015), O crime do cais do Valongo (2018) e Nada digo
de ti, que em ti não veja (2020).

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