Pessoas Normais - Sally Rooney (2018)

Em Pessoas Normais, publicado em 2018 pela escritora Sally Rooney, um livro com narrativa profunda e descritiva, sem diálogos demarcados (o que dificulta no começo, mas que vamos nos adaptando no decorrer da leitura), acompanhamos a história complexa entre Marianne e Connell, que se conhecem desde a época da escola, sem nunca terem uma interação um com o outro, mas sempre se encontrando quando Connell buscava a mãe no trabalho, na casa de Marianne, o que permite que os dois se aproximem e assim comecem uma relação, ainda que às escondidas. 


Marianne é rejeitada e sofre bullying na escola, enquanto Connell é o cara popular e respeitado. O medo de perder seu status social o leva a manter o relacionamento em segredo, até que convida outra garota para o baile, ferindo profundamente os sentimentos de Marianne.


Faculdade: um reencontro

Depois de um período sem se encontrarem, o caminho dos dois se cruza novamente. Agora na faculdade, eles experimentam uma vida completamente invertida: Marianne torna-se popular e integrada à um círculo intelectual e abastado, enquanto Connell se sente deslocado, sem conseguir reconstruir a mesma aceitação que tinha no colégio. 

De forma inevitável, os dois se envolvem novamente, mas presos a um padrão de encontros e desencontros, incapazes de nomear ou definir aquela relação. 


Mas o livro fala mais do que essa relação bagunçada...

Suas experiências são moldadas por meio de suas diferenças econômicas. 

Connell é um cara pobre, filho de mãe solteira e empregada doméstica, extremamente amado. Seu status na escola alcançou um padrão social que estava longe de suas possibilidades. Apesar de super inteligente, na escola ele só precisava ser bonito e jogar bem futebol. Diferente da faculdade, onde o "ter" era mais importante que o "ser", ele é sempre descredibilizado, muitos duvidam de sua inteligência, como se uma pessoa só pudesse ter capacidade intelectual se isso viesse acompanhado de valor monetário. 

Já Marianne vive o oposto. Também extremamente inteligente, além dos abusos que sofria na escola, sofria pelas agressões do pai e do irmão e pela negligência afetiva da mãe, fazendo-a acreditar que não merecia ser amada. Na faculdade ela se torna uma pessoa com quem todos querem estar e a quem os homens desejam, mas seus traumas a tornam vulnerável a relacionamentos abusivos.

Para se manter durante a faculdade, Marianne mora no apartamento da avó, não paga aluguel e tem todas as despesas custeadas pela família, enquanto Connell divide um quartinho com um colega e faz alguns bicos para de sustentar, vivendo a pressão constante da insegurança financeira. 

Quando abrem vagas para bolsas, que dariam direito a moradia e alimentação gratuitas, ambos conseguem. O que para Marianne é uma questão de reconhecimento intelectual, para Connell é questão de sobrevivência. 


Pessoas normais 

Muitos dos conflitos entre os dois poderiam ser resolvidos com diálogo, mas ambos estão presos em seus conflitos pessoais: Connell por sua ansiedade social e Marianne pela baixa autoestima. 

Longe de querer romantizar o sofrimento e angústia dos protagonistas, o livro só mostra que tudo isso faz parte da condição humana, como seres imperfeitos, confusos e em constante transformação. 

Não foi o livro que mais amei na vida, mas está longe de ser um livro ruim. O livro mostra protagonistas que sofrem com a depressão e a insegurança. Sally Rooney consegue transmitir como nossos traumas moldam nossas relações, e como vidas, privilegiadas ou não, podem se sentir perdidas.

No fim, Marianne e Connell não precisam de um final feliz tradicional, precisam apenas de compreensão. Nada além do que precisa qualquer "pessoa normal".


Série adaptada

O livro ganhou em 2020 uma adaptação pela Hulu/HBO, que teve 91% de aprovação da critica e 92% do público, pelo Rotten Tomatoes, com Pedro Mescal e Daisy Edgar-Jones nos papéis principais.

Assisti? Não, mas acredito ser uma boa indicação pra quem se interessar pela história, mas ainda não quiser ler o livro.

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