Capitães da Areia
“Não durou
muito na chefia o caboclo Raimundo. Pedro Bala era muito mais ativo, sabia
planejar os trabalhos, sabia tratar com os outros, trazia nos olhos e na voz a
autoridade de chefe. Um dia brigaram, a desgraça de Raimundo foi puxar a
navalha e cortar o rosto de Pedro, um talho que ficou para o resto da vida. Os
outros se meteram e como Pedro estava desarmado deram razão a ele e ficaram
esperando a revanche, que não tardou. Uma noite, quando Raimundo quis surrar
Barandão, Pedro tomou as dores do negrinho e rolaram na luta mais sensacional a
que as areias do cais jamais assistiram. Raimundo era mais alto e mais velho.
Porém Pedro Bala, o cabelo loiro voando, a cicatriz vermelha no rosto, era de
uma agilidade espantosa e desde esse dia Raimundo deixou não só a Chefia dos
Capitães da Areia, como o próprio areal. Engajou tempos depois num navio.”
(Pag. 29 e texto da Quarta Capa, Ed. Companhia das Letras)
Difícil falar algo
sobre um livro publicado em 1937 que já não tenha sido dito. Escrito por
Jorge Amado, gerou polêmicas desde seu lançamento, inclusive voltou a
circular em algumas recentemente, traz como protagonista um grupo
marginalizado, mas que reflete uma situação social real de extrema pobreza e
desamparo.
O Livro
A história narra
a vida dos Capitães da Areia, um grupo de garotos abandonados que vivem em
um trapiche (armazém antigo à beira-mar) em Salvador, e tentam garantir sua
sobrevivência cometendo roubos e outros delitos, tornando-os temidos e
procurados por toda a cidade. Vale ressaltar que Jorge Amado chegou a conviver com garotos em situação de rua
durante um tempo, antes de escrever o livro, que pode até parecer ficção, mas narra uma realidade que passa longe do que muita gente enxerga (ou gostaria de não ver).
Existem outros
grupos na cidade, mas os Capitães é o maior e mais conhecido, fazendo
parte dele cerca de 100 crianças, com idades entre 8 e 15 anos, e apesar da idade
não vivem de acordo com ela, sendo obrigados a agir como “homens feitos”. O
fato de serem crianças aparece em alguns trechos, mas o tempo e as
oportunidades que eles têm para o ser é curto.
O grupo é
liderado por Pedro-Bala, que consegue mantê-los unidos, com todos seguindo
regras, tanto quanto ao “trabalho” quanto à convivência.
A narrativa
vai contando as andanças dos meninos pela cidade e chega a chocar em alguns
momentos. Todos os crimes que o livro narra não são ações para serem perdoados, nem vistas como coisas de criança ou uma romantizadas, mas mostra como é a vida de crianças em situação de rua e como
essa é infelizmente a única saída que eles possuem de continuar vivendo, já que
quem deveria cuidar e ampará-los fecha os olhos diante daquilo, tanto
poder público, quanto a sociedade civil e a igreja, vistos apenas como um mal que
precisa ser eliminado.
E mesmo que
cometam crimes, eles os fazem pois existem pessoas, comerciantes e outros cidadãos
de bem, que encomendam seus serviços, desde furtos até invasões de residências,
e que pagam pelo resultado de suas ações.
Dentre os
amigos fora do grupo estão o Padre José Pedro, que sabe que os garotos pecam
por fazerem o que fazem, mas entende que eles não têm outra alternativa, a mãe
de santo Don’Aninha, que ajuda nas enfermidades e males que afligem os garotos,
João de Adão e Querido de Deus.
Uma vida sem
esperança, mas que não impede que todos carreguem um desejo ou um simples
sentimento de que tudo poderia ser diferente: Pedro-Bala compreende o que é uma
greve e se imagina participando de uma, lutando por melhores condições e
direitos para os trabalhadores do cais; Pirulito desejava Padre; Professor
era leitor e desenhista e, quem sabe, não poderia fazer daquilo seu viver; João
Grande não era a pessoa mais inteligente do mundo, mas era um cara bom; Volta
Seca sonhava em entrar para o bando de Lampião, seu padrinho; e por aí vai.
“Mas o
Sem-Pernas... Ele queria uma coisa imediata, uma coisa que pusesse seu rosto sorridente
e alegre... Que o livrasse também daquela angústia, daquela vontade de chorar
que o tomava nas noites de inverno... Queria alegria, uma mão que o
acarinhasse, alguém que com muito amor o fizesse esquecer o defeito físico e os
muitos anos (...) que vivera sozinho nas ruas da cidade, hostilizado pelos homens
que passavam, empurrado pelos guardas, surrado pelos moleques maiores.” (Pág.
38)
Citando o posfácio feito
pelo escritor Milton Hatoum:
“Mais de setenta anos
depois da primeira edição, Capitães da Areia continua a ser lido não
apenas como um registro social de uma época e de um lugar específico, mas
também como uma obra literária que habilmente soube evocar um drama humano que
ainda perdura.” (Pág. 278)
Censura
Em 1937,
808 livros foram banidos e então incinerados, sendo 90% deles de Jorge Amado, e
metade exemplares de Capitães de Areia. Conforme descrito na época pelo
recém-instalado Estado Novo de Getúlio Vargas, a fogueira tinha como objetivo
combater a “propaganda do credo vermelho”.
Sobre o
Autor
O baiano Jorge
Amado (1912-2001) foi um dos mais importantes escritores brasileiros do
século XX, com obras traduzidas para dezenas de idiomas e adaptadas com sucesso
para o cinema, o teatro e a televisão. Entre seus romances mais célebres estão
Mar Morto, Gabriela, cravo e canela, Dona Flor e seus dois maridos e Tenda dos
Milagres.
Foi preso em
1936, acusado de ter participado, um ano antes, da Intentona Comunista, e
novamente em 1937, após a instalação do Estado Novo.
Jorge Amado foi eleito deputado federal pela Bahia e no cargo, em 1946, propôs leis para assegurar a liberdade de culto religioso e fortalecer os direitos autorais. Em 1947 seu mandato é cassado e em 1948, devido à perseguição política, exila-se em Paris e posteriormente, após ser expulso da França devido ao seu posicionamento político, na Tchecoslováquia.
Além de ter escrito mais de 30 livros, ocupou uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (eleito em 6 de abril de 1961), foi homenageado e premiados diversas vezes, mas também viveu uma vida dedicada à política, defendendo a liberdade de expressão e militando pelos direitos do povo. Sua obra serviu para dar voz aos marginalizados, celebrar a cultura do povo e retratar, com sensibilidade e crítica, as complexidades do país.
Fontes

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